Festa tradicional, investimento cultural ou uma conta que precisa ser explicada à população?
R$ 2 milhões. Esse é o valor que o Município de Santa Luzia está autorizado a repassar ao Sindicato dos Produtores Rurais para a realização da 38ª Feira de Gado e Rodeio Show.
A autorização está na Lei Municipal nº 5.035, sancionada em 26 de agosto de 2026. A legislação prevê repasse de até R$ 2 milhões e determina que a entidade apresente plano de trabalho, relatórios de execução e prestação de contas.
O dinheiro sai do orçamento municipal, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, na ação orçamentária destinada a promoções e eventos culturais. O próprio município justificou o investimento com argumentos como valorização da cultura, incentivo ao agronegócio, turismo, apoio ao produtor rural e movimentação da economia local e regional.
E é justamente aí que começa a principal pergunta desta reportagem:

QUANTO SANTA LUZIA INVESTE E O QUE RECEBE DE VOLTA?
Não se trata de questionar a importância cultural de uma festa tradicional ou o direito da população ao lazer.
A questão é outra: quando recursos públicos são utilizados, quais são os resultados concretos entregues à população?
O Termo de Colaboração publicado pela Prefeitura estabelece o repasse de R$ 2 milhões e relaciona uma série de contrapartidas e obrigações, incluindo infraestrutura, logística, atividades agropecuárias, premiações, feira rural e medidas relacionadas à organização do evento.
A população, portanto, tem o direito de saber quanto foi efetivamente gasto e quais metas foram cumpridas.
QUANTO CUSTOU CADA PARTE DA FESTA?
O valor global é conhecido.
Mas ainda é necessário colocar a lupa sobre a composição dessa despesa.
Quanto foi destinado para:
- artistas e atrações musicais;
- estrutura de palco;
- som e iluminação;
- segurança;
- limpeza;
- banheiros;
- divulgação;
- premiações;
- serviços veterinários e acompanhamento dos animais;
- infraestrutura;
- logística;
- equipes de apoio;
- demais fornecedores?
Esses números precisam estar disponíveis de forma clara na prestação de contas.
E A ARRECADAÇÃO?
Essa pergunta não é nova.
Em 2025, um requerimento apresentado na Câmara Municipal solicitou informações sobre os gastos públicos relacionados a festas e eventos, incluindo o Santa Luzia Rodeio Show.
Entre os questionamentos estavam justamente a arrecadação de ingressos, empresa responsável pela bilheteria, valores dos artistas, participação financeira do município e receitas provenientes de barracas e ambulantes.
Em resposta a questionamentos anteriores, o Município informou que, naquele modelo, a arrecadação de bilheteria e a gestão dos custos com artistas, produção e organização ficaram sob responsabilidade do Sindicato, enquanto a Prefeitura teria atuado em apoio, licenciamento e fiscalização. O próprio documento também indicava que determinadas informações dependeriam da conclusão da prestação de contas.
Agora, diante do repasse de R$ 2 milhões em 2026, a discussão ganha outra dimensão.

QUAL FOI O RETORNO ECONÔMICO?
Se a justificativa oficial para o investimento inclui movimentação da economia local e regional, é razoável buscar números.
Quantos comerciantes participaram?
Quantos trabalhadores foram contratados?
Quanto foi movimentado por hotéis, restaurantes, bares, transportadores e comércio local?
Quantos produtores rurais participaram?
Quantos visitantes vieram de outras cidades?
Existe levantamento econômico do impacto do evento?
Sem esses dados, falar em retorno econômico fica restrito à expectativa prevista no plano de trabalho, e não a um resultado já demonstrado.
FESTA OU PRIORIDADE?
Santa Luzia possui demandas em diferentes áreas e um orçamento público com inúmeras necessidades.
Por isso, a discussão não precisa ser colocada simplesmente como “rodeio contra saúde”, “rodeio contra educação” ou “festa contra infraestrutura”.
A pergunta correta é:
O gasto de R$ 2 milhões está devidamente planejado, justificado, executado e demonstrado em resultados compatíveis com o investimento público?
Essa é uma questão de gestão e transparência.
HÁ UM PONTO QUE MERECE ATENÇÃO
Os documentos oficiais publicados sobre a parceria precisam ser analisados também quanto à coerência das datas e obrigações.
O Termo de Colaboração referente ao evento de 2026 menciona, em determinado trecho de suas contrapartidas, a realização de shows nos dias 19, 20 e 21 de setembro de 2025, informação que aparenta não corresponder ao evento de 2026 e merece esclarecimento formal da Prefeitura e da entidade parceira.
Isso, por si só, não comprova irregularidade. Mas é exatamente o tipo de informação que uma prestação de contas transparente deve esclarecer.
A PERGUNTA FICA PARA A PREFEITURA
A Rádio e TV Elo entende que uma festa tradicional pode ter importância cultural, turística e econômica.
Mas, quando existe dinheiro público envolvido, a população precisa conhecer a conta completa.
Por isso, ficam algumas perguntas:
1. Quanto dos R$ 2 milhões já foi efetivamente repassado?
2. Quanto foi efetivamente gasto?
3. Qual foi o custo individual de cada atração e serviço?
4. Quanto foi arrecadado com ingressos?
5. Quanto foi arrecadado com camarotes, barracas e demais atividades?
6. Quanto dessa movimentação permaneceu efetivamente na economia de Santa Luzia?
7. Quantos empregos foram gerados?
8. Quais foram as metas previstas no plano de trabalho e quais foram cumpridas?
9. Quando a prestação de contas completa será publicada?
10. Qual foi o custo do evento por participante e qual foi o impacto econômico mensurado?
A população não precisa apenas saber quanto custa a festa.
Precisa saber o que foi entregue com o dinheiro público.
RÁDIO E TV ELO — A RÁDIO DA NOSSA CIDADE
Transparência, fiscalização e informação para Santa Luzia.